18 agosto 2009

Vicente

Esqueci de mim. De tudo! Senti-me no começo de uma grande busca, perto de algo terrível! O mundo parou e eu me transformei em um homem diante de sua razão. Foi aí que a pergunta brotou pela primeira vez: Quem sou eu? Quem? Era o canto que começava. Então, minha verdade saiu da terra, cresceu e ultrapassou a mata. Percebi...como devia ser maravilhoso compreender, interpretar e transmitir! Partir da minha casa, minha gente, de mim mesmo...e chegar ao significado de tudo, tendo como instrumentos de trabalho apenas as palavras e a vontade. Não usar nenhum suor, a não ser o meu. Nenhum braço, além dos meus. Nenhuma inteligência, exceto a minha. Isto era ser livre! Eu me comunicaria! Seria tudo!
Existem nessa cidade cinco milhões de habitantes! Como levar a eles o que é preciso dizer?
Há muitas coisas em minha vida, Lavínia, pedindo explicações. De muitas, lembro-me bem. Mas, são as escondidas que nos atormentam. As que ficam perdidas não sei em que imobilidade, agarradas às paredes como hera, guardadas em fundo de gaveta de cômodas velhas, refletidas em caixilhos, escondidas dentro de nós...!
Por que não posso ser o que sou? Escapar desse mundo, caduco para mim, e me comunicar...de uma maneira ou de outra. Deve haver algum meio! Mas sinto que falta sentido em tudo! Será que estou no caminho errado Lavínia? Vivemos numa sociedade em crise, de estruturas abaladas, valores negados, soluções salvadoras que não levaram a nada! Qual o caminho certo? Onde achar a resposta? No presente? No passado? Será que fiquei apenas em lamentações sobre a decadência...sem ter saído dela? Não posso passar a vida perguntando quem sou eu! Será que a incompreensão tem sido minha? A verdade já estará solta nas ruas...e eu não estou vendo? Tenho procurado resposta e não encontro. De tanto viver perguntas sem resposta, vou acabar andando à minha volta...e não chegarei nunca a uma solução.

"É que...já não sei até que ponto...tudo que quero dizer tem importância." - Vicente com 5, 15, 23 e 43 anos de idade. Encontrou a resposta? Nem ele sabe. Alguns trechos das falas do personagem em Rasto Atrás de Jorge Andrade.
Parecia que havia destruído um mundo dentro de mim e não conseguia substituí-lo. Eu sei que o fracasso também é positivo, mas quando se tem coragem de voltar-se para dentro de si mesmo e avaliar os erros que cometemos. Devo aproveitá-lo para entender-me...e criar alguma coisa. Para isso, preciso compreender esse passado e me libertar. Pensei que tivesse encontrado a explicação da angústia, de minha vida. Agora, vejo que tenho mentido. A pior coisa que pode acontecer a um autor, Lavínia, é perceber que mente e não saber como sair da mentira.

Vicente, personagem de Rasto Atrás de Jorge Andrade

16 agosto 2009

"Você é mais um conjunto de reações do que propriamente um ser humano."

Essa doeu.

11 agosto 2009

Acordou com ótimo humor, isso sempre acontecia depois de passar a noite lendo algo que lhe dava prazer, mas a briga com o melhor amigo fora inevitável. Luzia ficou pensativa. Ele pedira desculpas, mas o ocorrido não se apagaria, a cabeça ardia - dissera tudo? A imaginação a levaria longe, melhor seria parar de pensar. Tudo bem - Luzia respirou fundo - Até a noite restam muitas horas e elas precisam passar macias. Um telefonema, mais uma noite sozinha, a amiga que lhe faria companhia para ir ao cinema acabara de brigar com o namorado. Tudo bem - Estava acostumada e o fim do expediente se aproximava, iria, enfim, descansar. Depois de quase atropelar um cachorro, chegou em casa com o coração vazio de sempre. Faria algo simples para comer. Queria deitar-se, esquecer-se do quanto estava sozinha, esquecer-se do quanto era difícil continuar com tudo aquilo. Antes de dormir, escolheria para ler o que pudesse traduzir o que vivera hoje, assim poderia aliviar-se, e, quem sabe, acordar de bom humor.
O telefone tocou, uma amiga de longe, disse "Lú, tô grávida. Tu vai ser Dinda!"

- Cara, cara, uau!

E com essa notícia o peito de Luzia se encheu: era amor brotando. Daria amor, amor incondicional ao serzinho que chegaria logo mais. Delícia!

- Vida nova chegando! Oba, oba!

Desligou. Por alguns instantes refletiu: talvez fosse egoísta. Mas, com tranquilidade e um sorriso leve nos lábios foi dormir.

10 agosto 2009

O Ovo

Eu brincava com as crianças, as crianças brincavam comigo. Como todo o mundo vezenquando a gente brigava, pisava caco de vidro, roubava laranja, fugia pra tomar banho no rio. Uma vez também uma menina segurou no meu pinto. Ela era loira, gorda, tinha um tranção até a cintura. Depois ela casou com um soldado da brigada, prendeu as tranças em volta da cabeça, mas continuou gorda. Dessas gordas que à tardinha se debruçam na janela sobre uma almofada de cetim rosa. Toda vez que eu vinha do emprego passava em frente à casa dela e olhava exatamente como quem pensa "você uma vez segurou no meu pinto". Lógico, ela não me cumprimentava. Acho que não é muito comum as meninas que seguram nos pintos dos meninos cumprimentarem eles depois que crescem e casam.
Quando eu tinha uns treze anos arranjei uma namorada que namorei até os dezessete. Essa nunca segurou no meu pinto, e era diferente, dessas pra casar pelo menos naquela época eu pensava assim. Só há pouco tempo, depois que vim para cá, é que me convenci de que são todas umas vacas. E os homens, uns cães. Todos eles sabendo e fingindo que não sabem. A mãe da minha namorada ficava a noite inteira sentada com a gente na sala, só levantava para trazer doce de leite, de abóbora ou de batata-doce. A menina vezenquando tocava piano, mal para burro, diga-se de passagem. Mas eu nem ouvia direito. É que quando ela sentava um pedaço da saia levantava e apareciam umas coxonas muito brancas e grossas. Eu olhava discreto, o máximo que fazia era derrubar alguma coisa no chão pra ver melhor. Eu era um moço de respeito.
Quando tinha dezoito anos, ela casou. Com um soldado da brigada. Foi então que pensei seriamente em entrar para a brigada, já que duas mulheres da minha vida tinham casado com soldados. Parecia que eu estava destinado a sempre perdê-las para eles. Só que eu achava horrível aquela roupa, os coturnos, o casquete -tudo. Mas se eu queria casar - e naquele tempo eu queria - tinha que ser soldado. Até que descobri uma solução melhor. Perto da minha casa morava um soldado da brigada. A minha mãe era madrinha dele, a mãe dele era viúva. Quando crianças, nós brincávamos muito, mas era um guri esquisito como o diabo. Todo delicado, cheio de não-me-toques, loirinho,com uns olhos claros, uma cor que eu nunca mais consegui lembrar depois que ele se matou. Todos os sábados de manhã ele ia visitar mamãe, levava umas frutas ou doce qualquer que a mãe dele tinha feito e ficava conversando na sala, feito moça. Logo que minha namorada casou eu nem olhava pra ele, de tanto ódio. Depois comecei a armar uma vingança. Quando ele chegava eu ficava passando na sala sem camisa, às vezes até sem calças, só de cuecas. Ele ficava todo perturbado e desviava os olhos. Eu sentava perto, encostava a perna, piscava um olho pra ele na hora de apertar a mão. Um dia convidei-o pra fazer uma pescaria comigo. Levamos uma barraca, cobertores, pinga, duas dessas camas de armar. E de noite eu comi ele. Com gosto. Como se estivesse com o pau na bunda de todos os soldados da brigada do mundo. Ele nunca mais foi lá em casa, a minha mãe reclamava, parava ele na rua para perguntar por quê. Até que ele tomou formicida e morreu.
Aí nasceu o meu irmão. Não tem nada a ver uma coisa com a outra, mas não posso fazer nada se meu irmão nasceu mesmo quando ele morreu. Nasceu direitinho e tudo, mas quando tinha uns seis meses começou a definhar, definhar, e morreu de caganeira verde. Foi bom. Senão seria mais um filho da puta. Ou soldado da brigada, o que dá no mesmo. Mas no dia em que ele morreu, eu não pensei assim. Subi em cima da montanha e fiquei olhando o mundo. Agora eu penso que se ele não tivesse morri do eu não teria subido na montanha, e se não tivesse subido na montanha não teria visto o que vi. Mas as coisas são porque têm que ser, não adianta nada a gente querer que sejam de outro jeito. Então ele morreu, eu subi na montanha e vi. O mundo.

Trecho do conto "O Ovo" do Caio Fernando Abreu

07 agosto 2009

- Olha, quantos anos tu tem? Conversa comigo. Tu tá todo sujo de sangue. Te ofereceria um gole da minha bebida...O que houve, tu cheirou? Hum, imaginei. Olha, tu tá com a cara toda suja, tem sangue nas tuas mãos. (Menino passa a mão no nariz a fim de limpar o sangue que escorre pelas narinas.) Hum, tu já viu aquela cena do Pulp Fiction? (O menino não consegue falar, está com os olhos estalados de tanto pó que cheirou.)
- Oi, voltei.
- Ah, ótimo, trouxe a cerveja? Olha só esse cara aqui, acho que ele andou cheirando demais.
- Hum, tu cheirou cara? Olha, eu tenho desvio de septo, cada vez que eu cheiro eu faço um estrago, tu tem isso também? Algum outro problema?
(O Menino me olhava fixamente)
- Cara, eu sei que ela é linda, mas não te apaixona.
(Menino sorri.)
- Hum, olha só querido, acho melhor tu ir no banheiro e lavar o rosto e as mãos porque desse jeito tu não vai pegar ninguém nessa festa. O que tu acha?
(O menino sorri para mim, passa as mãos no nariz espalhando mais o sangue pelo rosto sujando-o ainda mais. Levanta-se e vai em direção ao banheiro)
- É acho que ele ficou afim de ti.
- Pode ser.

Diários de Samantha Wolf - uma de suas noites.

05 agosto 2009

Um pouco de Clarice e o livro dos prazeres

Ainda era cedo para acender as lâmpadas, o que pelo menos precipitaria uma noite. A noite que não vinha, não vinha, não vinha, que era impossível. E o seu amor que agora era impossível — que era seco como a febre de quem não transpira, era amor sem ópio nem morfina. E "eu te amo" era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça. Farpa incrustada na parte mais grossa da sola do pé. Ah, e a falta de sede. Calor com sede seria suportável. Mas ah, a falta de sede. Não havia senão faltas e ausências. E nem ao menos a vontade. Só farpas sem ponta salientes por onde serem pinçadas e extirpadas. Só os dentes estavam úmidos. Dentro de uma boca voraz e ressequida os dentes úmidos mas duros — e sobretudo a boca voraz para nada. E o nada era quente naquele fim de tarde eternizada pelo planeta Marte. Seus olhos abertos e diamantes. Nos telhados os pardais secos. "Eu vos amo, pessoas", era frase impossível. A humanidade lhe era como morte eterna que no entanto não tivesse o alívio de enfim morrer. Nada, nada morria na tarde enxuta, nada apodrecia. E às seis horas da tarde fazia meio-dia. Fazia meio-dia com um barulho atento de máquina de bomba de água, bomba que trabalhava há tanto tempo sem água e que virará ferro enferrujado: há dois dias faltava água em diversas zonas da cidade. Nada jamais fora tão acordado como seu corpo sem transpiração e seus olhos-diamantes, e de vibração parada. Nem mesmo a angústia. O peito vazio, sem contração. Não havia grito. Dor? Nenhuma. Nenhum sinal de lágrima e nenhum suor. Sal nenhum. Só uma doçura pesada: como a da casca lenta dos elefantes de couro ressequido. A esqualidez límpida e quente. Pensar no seu homem? Não, era a farpa na parte coração dos pés. Ah, se as mãos começassem a se umedecer. Nem que houvesse água, por ódio não se banharia. Era por ódio que não havia água. Nada escorria. A dificuldade era uma coisa parada. E uma jóia diamante. A cigarra de garganta seca não parava de rosnar. Por seco e calmo ódio, quero isso mesmo, este silêncio feito de calor que a cigarra rude torna sensível. Sensível? Não se sente nada. Senão esta dura falta de ópio que amenize. Quero que isto que é intolerável continue porque quero a eternidade. Quero esta espera contínua como o canto avermelhado da cigarra, pois tudo isso é a morte parada, é a Eternidade de trilhões de anos das estrelas e da Terra, é o cio sem desejo, os cães sem ladrar. É nessa hora que o bem e o mal não existem. É o perdão súbito, nós que nos alimentávamos com gosto secreto da punição. Agora é a indiferença de um perdão. Pois não há mais julgamento. Não é um perdão que tenha vindo depois de um julgamento. É a ausência de juiz e condenado. E não chove, não chove. Não existe menstruação. Os ovários são duas pérolas secas. Vou vos dizer a verdade: por ódio seco, quero é isto mesmo, e que não chova.

Clarice Lispector - Trecho de "A Origem da Primavera ou A Morte Necessária em Pleno Dia".

04 agosto 2009

"Declamações entre latas de lixo e a suave soberana luz da mente"

Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e de olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz, que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevados, que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de William Blake entre os estudiosos da guerra, que foram expulsos das universidades por serem loucos e publicarem odes obscenas nas janelas do crânio, que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestas de papel, escutando o Terror através da parede.
Flagelaram seus torsos noite após noite com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e caralhos e intermináveis orgias, incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem tremula e clarão na mente, iluminando completamente o mundo imóvel do Tempo intermediário, porre de vinho nos telhados, cabeça feita do prazer, vibrações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de inverno, declamações entre latas de lixo e a suave soberana luz da mente, trêmulos, a boca arrebentada e o despovoado deserto do cérebro esvaziado de qualquer brilho. Batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gradis das escadas de emergência dos parapeitos das janelas do Empire State da Lua, tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando fatos e lembranças e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões e guerras, intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os olhos brilhando por sete dias e noites. Vaguearam famintos e sós procurando jazz ou sexo ou rango, distribuíndo folhetos ininteligíveis, que apagaram cigarros acesos nos seus braços protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco do Capitalismo, que distribuíram panfletos supercomunistas em Union Square, chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto que eles. Morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos carros de presos por não terem cometido outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica, que uivaram de joelhos no Metrô e foram arrancados do telhado sacudindo genitais e manuscritos, que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e urraram de prazer, que enrabaram e foram enrabados por esses serafins humanos, os marinheiros, carícias de amor atlântico e caribeano, que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais, na grama de jardins públicos e cemitérios, espalhando livremente seu sêmem para quem quisesse vir, que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas acabaram choramingando atrás de um tabique de banho turco onde o anjo loiro e nu veio atravessá-los com sua espada, que perderam seus garotos amados para as três megeras do destino, a megera caolha do dólar heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera caolha que só sabe ficar plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios intelectuais do tear do artesão, que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de cerveja, uma namorada, um maço de cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram pelo assoalho e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a parede com uma visão da buceta final e acabaram sufocando um derradeiro lampejo de consciência, que adoçaram as trepadas de um milhão de garotas trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos no dia seguinte mesmo assim prontos para adoçar trepadas na aurora. Que jogaram seus relógios do telhado fazendo seu lance de aposta pela Eternidade fora do Tempo e despertadores caíram nas suas cabeças por todos os dias da década seguinte, que cortaram seus pulsos sem resultado por três vezes seguidas, desistiram e foram obrigados a abrir lojas de antigüidades onde acharam que estavam ficando velhos e choraram. Cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se pela janela do metrô, choraram pela rua afora, dançaram sobre garrafas quebradas de vinho descalços arrebentando nostálgicos discos de jazz europeu dos anos 30 na Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram gemendo no toalete sangrento, lamentações nos ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor, que mandaram brasa pelas rodovias do passado viajando pela solidão da vigília de cadeia, que guiaram atravessando o país durante setenta e duas horas para saber se eu tinha tido uma visão ou se você tinha tido uma visão ou se ele tinha tido uma visão para descobrir a Eternidade e finalmente partiram para descobrir o Tempo.

Alguns trechos selecionados de "Howl" de Allen Ginsberg

02 agosto 2009

A: Você é meu companheiro.
B: Hein?
A: Você é meu companheiro, eu disse
B: O quê?
A: Eu disse que você é meu companheiro.
B: O que é que você quer dizer com isso?
A: Eu quero dizer que você é meu companheiro. Só isso.
B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.
A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico.
B: Não é disso que estou falando.
A: Você está falando do quê, então?
B: Estou falando disso que você falou agora.
A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.
B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.
A: Você também sente?
B: O quê?
A: Que você é meu companheiro?
B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.
A: Atrás do companheiro?
B: É.
A: Não.
B: Você não sente?
A: Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não?
B: Não. Não é isso. Não é assim.
A: Você não quer que seja isso assim?
B: Não é que eu não queira: é que não é.
A: Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro.
B: Agora não?
A: Agora sim. Você quer?
B: O quê?
A: Ser meu companheiro.
B: Ser teu companheiro?
A: É.
B: Companheiro?
A: Sim.
B: Eu não sei. Por favor não me confunda. No começo era claro. Tem alguma coisa atrás, você não vê?
A: Eu vejo. Eu quero.
B: O quê?
A: Que você seja meu companheiro.
B: Hein?
A: Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.
B: O quê?
A: Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.
B: Você disse?
A: Eu disse?
B: Não, não foi assim: eu disse.
A: O quê?
B: Você é meu companheiro.
A: Hein?


Diálogo retirado do livro Morangos Mofados do Caio Fernando Abreu.

16 julho 2009

Só nós mulheres sabemos o quanto é difícil viver em uma sociedade patriarcal. O machismo impera em todas as formas de comunicação e todos os tipos de relação. Ter consciência e tentar driblar não é simples, pelo contrário, é doloroso e agressivo ter de lidar com a tamanha incoerência dessa "lógica" cultural. Perceber as formas de dominação, transpor os pensamentos que nos consomem e os limites que nós próprias nos damos, como por exemplo, o medo de enfrentar força física, são obstáculos que superamos para combater o machismo de frente; são atitudes difíceis mas necessárias. Nós mulheres não somos frágeis e fracas, não somos bonecas choronas e nem princesinhas que precisam de proteção, não somos carentes e nem histéricas irracionais, tentaram nos fazer crer nesta farsa. Os homens sempre nos dominaram, pais, irmãos, companheiros; fomos escravas, fomos prêmios, nossa virgindade foi prêmio, nosso sexo sempre foi tabu, disseram que éramos inferiores.
Agora chega. Sou só minha, inteiramente minha.

13 julho 2009

Eles acreditavam que não chegaríamos nunca. No entanto, nada nos deteve. Eu sei, agora a fuga não é mais o caminho. Eu sei que as fronteiras estão fechadas, que nas poucas brechas que havia, eles levantaram mastros. Eu sei. Eu sei da força, da ordem, do fuzil e da armadilha. Eu sei. Eu sei! Mas eu creio numa coisa maior! Me dizendo que a gente consegue. Não importa, não se apela aos covardes. Nem aos cansados da viagem. Somos covardes? Estamos cansados? Como contar com os outros se um a um foram massacrados? Porque então a nossa luta? A razão se esvazia e no final o silêncio prevalece? Não. Eu creio em algo maior dizendo que a gente consegue. E eu sei, a gente consegue.

Livremente inspirado na peça "Patética" de João Ribeiro Chaves Neto.

08 julho 2009

Conto Erótico.

- Só estavamos aqui tentando estudar, eu juro.

03 julho 2009

Eurídice

Uma pessoa tem um corpo,
Um só, sozinho.
A alma já está farta
De ficar confinada dentro
De uma caixa, com orelhas e olhos
Feita de pele - só cicatrizes -
Cobrindo um esqueleto.

Pela córnea ela voa
Para a cúpula do céu,
Sobre um raio gélido,
Até uma rodopiante revoada de pássaros,
E ouve pelas grades
Da sua prisão viva
O crepitar de florestas e milharais
O troar de sete mares.

Uma alma sem corpo é pecaminosa
Nenhuma inteção, nem um verso.
Uma charada sem solução:
Quem vai voltar
Ao salão depois do baile,
Quando não há ninguém para dançar?

E eu sonho com uma alma diferente
Vestida com outras roupas:
Que se inflama enquanto corre
Da timidez à esperança;
Pura e sem sombra,
Como fogo, ela percorre a Terra,
Deixa lilases sobre a mesa
Para que se lembrem dela.

Então continua a correr, criança, não te aflige
Por causa da Eurídice;
Continua a rodar teu aro de cobre,
Corre com ele mundo afora,
Enquanto, em notas firmes
De tom alegre e frio,
Em resposta a cada passo que deres,
A Terra soar em teus ouvidos.

- Arseni Tarkovski -

Depois de resgatá-la, com sua música, Orfeu olhou para trás antes de chegar a superfície, e assim perdeu Eurídice para sempre.

02 julho 2009

O ar é aquela coisa que se move em torno da cabeça e se torna mais claro quando você ri.

Posso sentir várias coisas ao mesmo tempo, o caminho do nosso coração é coberto de sombras, precisamos ouvir as vozes que nos parecem inúteis. Precisamos encher as orelhas e os olhos de todos nós com sonhos, com coisas de sonhos. Precisamos alimentar o desejo e esticar os cantos da alma como um lençol sem fim.
Se querem que o mundo vá adiante devemos nos dar as mãos. Precisamos mesclar os ditos saudáveis com os ditos doentes.
Vocês sãos! O que significa sua saúde? Os olhos da humanidade miram o abismo no qual estamos todos mergulhando. A liberdade é inútil se você não tem coragem de olhar em nossos olhos, de comer conosco e de beber conosco. São os ditos sãos que levaram o mundo a beira da catástrofe. Homens escutem!
Grandes coisas acabam, só as pequenas permanecem. Basta observar a natureza para se ver que a vida é simples. Precisamos voltar ao ponto onde tomamos o caminho errado. Precisamos voltar ao fundamento da vida sem sujar a água. Que tipo de mundo é este se é um louco que lhes diz que devem envergonhar-se?! Ó mãe! O ar é aquela coisa que se move em torno da cabeça e se torna mais claro quando você ri.
Dito por um Louco.
Trechos retirados de "Nostalgia", filme de Tarkovski, escrita livremente adaptada.

25 junho 2009

A produção intelectual está baixa por aqui,
porém,
a reprodução cultural vai indo bem!
Encontrei um sebo cheio de Drummond
vazio de Cecília Meireles;
trouxe "Poesia Errante"
pra fazer par com o Alento e
também um incenso de Alecrim.
Meu Quintana continua no bolso,
acompanhando o mineirinho,
Caio num PDF e quero muito mais de Brecht.


Amanhã Maratona Literária

24 junho 2009

ninguém é superior a ninguém

aos intelectuais -
"Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade."

aos revolucionários -
"É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática."
"Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes."

aos educadores -
"Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda".

delícia de viver -
"Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele. Está é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado."

à toda gente -
"Amar é um ato de coragem."


Paulo Freire - "Não se pode falar em educação sem amor", em revolução também não.

23 junho 2009

Kassandra - Adubaste com sangue esta terra. Fartaste de corpos humanos uma indústria. Nas tuas máquinas trituradoras, tu, o cão sanguinário. A tua propriedade privada são dois pares de botas. Dizias tu, quando te perguntaram pelos teus cadáveres: "acaso os contaste?". Já não podes contá-los porque são o chão em que pisamos em direção ao teu futuro radioso. A humanidade é um triste material. Humanamente material. Formigas em baixo da bota. Ontem para o teu amanhã. Vejo a chegada de uma época onde os reis bárbaros governam um mundo cheio de vícios, onde homens audaciosos e maus vivem vidas curtas, têm os cabelos brancos aos dezesseis anos e copulam com animais. Suas mulheres prostitutas fazem amor com bocas de cobiça. As vacas são secas e estéreis. Já não há mais flores e nem pureza, só ambição, corrupção, comércio. Eu não poderia amar um herói. Eu não quero assistir à tua metamorfose em monumento público. Ainda bem, Enéias, que tu nunca disseste que isso não te aconteceria ou que tu poderias me livrar de tudo isso. O que se pode fazer contra uma época que necessita de heróis? Que a dor nos faça lembrar um do outro. Por ela será que nos reconheceremos mais tarde, caso exista um mais tarde.
...
Eumelo - Kassandra, ninguém é feliz sem fazer mal aos outros. É a ordem da terra.
Kassandra - Eu não nasci para consentir nessa ordem.
Eumelo - E quem é que pede para consentires? A ordem do mundo não mudará o sabor dos teus desejos. Se queres mudá-la, abandona os teus sonhos e toma conhecimento da realidade.
Kassandra - Eu já conheço a receita. É preciso matar para suprimir a injustiça. Há séculos que isso dura. Há séculos que os senhores da tua raça apodrecem a chaga do mundo sob o pretexto de curá-la. E, no entanto, continuam a vangloriar-se de sua receita, uma vez que ninguém lhes riu na cara.
Eumelo - Basta olhar para os homens e verás que qualquer justiça é bastante boa para eles. Então, já sabes. Eles te deixarão sempre só. E aquela que está sozinha deve morrer.
Kassandra - Não, é uma tese falsa. Se eu estivesse só, tudo seria fácil. Mas, por bem ou por mal, eles estão comigo.
Eumelo - Belo rebanho, pena que cheira mal.
Kassandra - Eles não são puros. Eu também não sou. Além do mais, nasci entre eles. Vivo para minha cidade e para a minha época.
Eumelo - Veste os teus homens livres com o uniforme da minha polícia e verás no que eles se transformam.
Kassandra - É verdade que lhes acontece serem covardes e cruéis. É por isso que não têm mais do que tu o direito ao poder. Homem nenhum, nenhum, tem virtude o suficiente para que lhe possa ser permitido o poder absoluto. Eu só desprezo os carrascos. Faças o que fizeres, esses homens sempre serão maiores do que tu. Se lhes acontecer, de alguma vez, matar, é na loucura de um instante. Tu, não. Tu massacras segundo a lei e a lógica. Não rias de seu ar de temor. Há séculos o cometa do medo passa por cima deles. Há séculos eles morrem e seu amor é dilacerado. O maior de seus crimes terá sempre uma desculpa. Mas não encontro desculpas para o crime que, em todos os tempos, tens cometido contra eles e que, para arrematar, tiveste a idéia de codificar nessa imunda ordem que é a tua. Eu não baixarei os olhos. Agora eu entendo o que me foi imposto "tu dirás a verdade, mas ninguém acreditará em ti". Alí estava o ninguém que deveria me crer. Que não foi capaz de crer porque não acreditava em nada. Um ninguém incapaz de crer. Que, ao menos, o meu ódio sobrevivesse. Que brote do meu túmulo o ódio. E eu? Haverá um mundo, um tempo, um lugar pra mim? Ninguém a quem possa perguntar. Essa é a resposta.

Fragmentos de Kassandra In Process baseados em "Germania 3 Morte em Berlim" de Heiner Muller, em "Estado de sítio" de Albert Camus e ainda em "Medéia. Vozes." de Christa Wolf.

20 junho 2009

Cena da peça "Patética" de João Ribeiro Chaves Neto

Glauco - Joana, por que o circo está fechando?
Joana - Dívida. Dinheiro curto. Os donos do terreno tão tirando ele da gente. Porque perdemos a demanda. É, teve uma demanda!...Quiseram subir o preço. Só vendo. O circo não podia. O que pagava já era muito. E eles sempre pediam mais. A gente tentou. Tentou de tudo. A gente foi falar com o Prefeito. Que não recebeu. E com o Secretário da Cultura. Que recebeu pra dizer que o circo não tinha nível. Pior ainda: mandou pôr no jornal que a gente tinha era que morrer mesmo.
Glauco - E você, o que pensa? Tem nível?
Joana - Tem. Tem sim!...Quanta coisa bonita se vê aqui. Coisa boa de se pensar e discutir. Parece só um bate-papo com quem tá sentado aí na frente. Mas eles aprendem e gostam que só vendo. A gente ensina...
Glauco - Ensina o que?
Joana - Que a vida...Que não se pode viver só pra comer, dormir. O circo ensina o outro lado.
Glauco - Que outro lado é esse?
Joana - O lado das coisas que não se diz. Porque não é preciso dizer não.
Glauco - Você sabe quem foi Shakespeare?
Joana - Quem foi sei não. Mas sei que escreveu o Otelo e a Megera, duas peças que fiz aqui. Sucesso todas duas.
Glauco - Vocês não tem receio de levar esses autores? Vocês pagam direitos autorais? Vocês não pensam que podem protestar contra o que estão fazendo?
Joana - Por que haviam de achar ruim? A gente faz direito. Como manda no papel!...As palavras que não se entende, Bolota explica. E, se for muito difícil, muda. A peça sai bem feita. Sai sim!...Então por que é que não iam gostar?
Glauco - Deixa pra lá, Joana. Eu quero saber agora se o público, esse que vem aqui, não acha o trabalho de vocês uma chatice.
Joana - Não! Acha não, senhor! Bate palma e volta sempre. Nós nunca acendemos a luz com menos de cinquenta pessoas. E antigamente, quando o circo era itinerante, vinha muito escritor trazer peça pra gente. Querendo que se levasse.
Glauco - E vocês levavam?
Joana - Se o Bolota achava bom, levava! Foi assim com a peça do Seu Zé Vicente. Aquela que morria todo mundo no fim.

17 junho 2009

"a propriedade é o grande valor do direito penal. Basta ver que a pena do furto é maior do que a pena de tortura"

Por que a Justiça não pune os ricos.
Por Tatiana Merlino
"Maria Aparecida evita olhar para sua imagem refletida no espelho. Faz quatro anos que a jovem paulistana saiu da cadeia, mas, nem que quisesse, conseguiria esquecer o que sofreu durante um ano de detenção. Seu reflexo remonta ao ocorrido no Cadeião de Pinheiros, onde esteve presa após tentar furtar um xampu e um condicionador que, juntos, valiam 24 reais.
Lá, Maria Aparecida de Matos pagou por seu “crime”: ficou cega do olho direito. Portadora de “retardo mental moderado”, a ex-empregada doméstica foi detida em flagrante em abril de 2004, quando tinha 23 anos. Na delegacia, não deixaram que telefonasse para a família. Foi mandada diretamente para a prisão, onde passou a dividir uma cela com outras 25 mulheres.
Em surto, a jovem não dormia durante a noite, comia o que encontrava pelo chão, urinava na roupa. Passado algum tempo, para tentar encerrar um tumulto, a carceragem lançou uma bomba de gás lacrimogêneo na área das detentas. Uma delas resolveu jogar água no rosto de Maria Aparecida, e a mistura do gás com o líquido fez com que seu olho fosse sendo queimado pouco a pouco. "Parecia que tinha um bicho me comendo lá dentro", conta.
A pedido das colegas de pavilhão, que não aguentavam mais os gritos de dor e os barulhos provocados pela moça, ela foi transferida para o "seguro", onde ficam as presas ameaçadas de morte. Maria Aparecida passou a apanhar dia e noite. "Eu chorava muito de dor no olho, e elas começaram a me bater com cabo de vassoura", relembra, emocionada. Somente quando compareceu à audiência do seu caso, sete meses depois de ter sido detida, sua transferência para a Casa de Custódia de Franco da Rocha, na Grande São Paulo, foi autorizada. Lá, diagnosticaram que havia perdido a visão do olho direito.
Foi nessa época que sua irmã Gisleine procurou a Pastoral Carcerária, que a encaminhou para a advogada Sonia Regina Arrojo e Drigo, vice-presidente do Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC). Sonia entrou com um pedido de habeas corpus no Tribunal de Justiça de São Paulo, que foi negado. Apelou, então, ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), que, em maio de 2005, concedeu liberdade provisória à jovem, 13 meses depois de ter sido presa por causa de 24 reais. A advogada também entrou com um pedido de extinção da ação, baseando-se no “princípio da insignificância”, aplicado quando o valor do patrimônio furtado é tão baixo que não vale a pena a justiça dar continuidade ao caso. No entanto, até hoje, o processo não foi julgado, e Maria Aparecida continua em liberdade provisória. A situação indigna Gisleine. "É um descaso muito grande. Já era para esse julgamento ter acontecido. Minha irmã pagou muito caro por esse xampu que não chegou a utilizar", critica. "Tem gente que não precisa estar na cadeia. Existem penas alternativas e o caso dela não seria de prisão, mas sim de internação, já que desde os 14 anos ela toma medicação controlada", afirma.
Justiça seletiva
O mesmo recurso jurídico – o habeas corpus – pedido pela advogada Sonia Drigo para que Maria Aparecida respondesse ao processo em liberdade foi solicitado e concedido, em 24 horas, a outra mulher. Mas um “pouco” mais rica: a empresária Eliana Tranchesi, proprietária da butique de luxo Daslu, em São Paulo, condenada em primeira instância a uma pena de 94,5 anos de prisão. Três pelo crime de formação de quadrilha, 42 por descaminho consumado (importação fraudulenta de um produto lícito), 13,5 anos por descaminho tentado e mais 36 por falsidade ideológica.
Somando impostos, multas e juros, a Justiça diz que a Daslu deve aos cofres públicos 1 bilhão de reais. Os representantes da empresa contestam esse valor, mas afirmam que já começaram a pagar as dívidas. A sentença inclui ainda o irmão de Eliana, Antonio Carlos Piva de Albuquerque, diretor financeiro da Daslu na época dos fatos, e Celso de Lima, dono da maior das importadoras envolvidas com as fraudes, a Multimport.
(...)
De acordo com juristas e analistas ouvidos pela reportagem da Caros Amigos, a diferença de tratamento dispensado a casos como o de Maria Aparecida e Eliana Tranchesi acontece porque, embora na teoria a lei seja a mesma para todos, na prática, ela funciona de forma bem distinta para os representantes da elite e para os pobres.
(...)
Em relação a casos penais, isso também ocorre, "como quando uma pessoa com muitos recursos financeiros é acusada – Paulo Maluf, por exemplo. Nesse caso, ela é capaz de bloquear o andamento do processo até que a pena esteja prescrita. A agilidade em decidir a prisão ou soltura de uma pessoa também varia, de acordo com sua classe social", aponta Koerner. A diferença é que "um acusado de classe menos favorecida não será capaz de usar as oportunidades permitidas pelo processo".
(...)
Mazina sustenta que a justiça brasileira é constituída para não ser popular. Em sua avaliação, desde a formação da legislação, há uma preocupação muito maior com a preservação patrimonial em detrimento da proteção da integridade física. Isso contribui, portanto, para a criminalização das camadas mais baixas da população, mais propensas, por sua condição social, a cometerem delitos contra o patrimônio. "Há um acirramento da legislação para os crimes cometidos pelos pobres. O código penal brasileiro criminaliza a pobreza", denuncia Mazina.
Sonia Drigo acredita que há uma dupla criminalização, pois "a exclusão já é uma criminalização. Isso me lembra a diferença de tratamento dado para um sem-teto e para aquele que mora numa mansão. Vamos penalizar aquele que não tem endereço, nem carteira assinada. Então, vamos bater nele, torturá-lo porque não teve condições de estudar e trabalhar". O caso da ex-empregada doméstica Maria Aparecida não deixa dúvidas a respeito de como isso acontece na prática. Na casa de sua irmã, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, a moça pouco fala. Mantém-se de cabeça baixa, cabelos longos e negros escondendo parte de seu rosto. Às vezes, esboça um sorriso ingênuo. Sua expressão é de uma menina.
A alegação que foi dada à família de Maria Aparecida para a perda da visão foi de que a jovem havia batido com o rosto no trinco de uma porta. "Mas isso é mentira, não tinha porta com trinco nenhum lá", afirma Gislaine. Quando a moça foi transferida da cadeia para o manicômio em Franco da Rocha, fizeram um exame de corpo de delito, que atestou lesões corporais leves. "Ela perdeu um órgão vital, não a socorreram. Gostaria de saber o que seria a lesão corporal grave, entregá-la num caixão para a família?", questiona Gislaine, indignada.
(...)
A "sagrada" defesa da propriedade privada acaba sendo utilizada como argumento para criminalizar movimentos sociais, como no caso das organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). "Na medida em que esses movimentos possam a reivindicar uma redistribuição de riquezas, há sua criminalização. Se tiverem apresentando um reclamo como o da proteção do meio ambiente, não há necessidade de criminalizá-lo. Mas se eles questionam a estrutura econômica da sociedade, há uma propensão à sua criminalização".
(...)
Uma das mulheres que Sonia defende também se chama Maria Aparecida, e foi presa em flagrante por tentativa de furto de seis desodorantes de uma loja em São Paulo. Condenada a 14 meses, sua pena está próxima do fim. A moça está na Penitenciária Feminina de Santana, a mesma onde Eliana Tranchesi esteve presa. A diferença é que a última teve habeas corpus concedido, enquanto a primeira não. Uma, era acusada de sonegar 1 bilhão em impostos. A outra, tentou subtrair objetos que não chegavam a totalizar 30 reais. "

14 junho 2009

Bertolt Brecht

I

Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?

Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso.

Nada do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta aquem tem sede?

Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo que se tem para
viver na terra;

Seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!


II

Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo
da revolta
e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
e não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.


III

Vocês, que vão emergir das ondas
em que nós perecemos, pensem,
quando falarem das nossas fraquezas,
nos tempos sombrios
de que vocês tiveram a sorte de escapar.
Nós existíamos através da luta de classes,
mudando mais seguidamente de países que desapatos, desesperados!
quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos:o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para
a amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão.